Internacional

A vitória em Standing Rock pode ser o marco de um novo capítulo

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Bill McKibben/ The Guardian

Texto traduzido:
A notícia de que o governo federal dos EUA se recusou a emitir a licença necessária para executar um gasoduto sob o rio Missouri significa muitas coisas – incluindo a vitória esmagadora dos indígenas, que mostra o que uma união pacífica pode conquistar.

Desde o início, esta tem sido uma batalha contra probabilidades. A empresa que estava construindo o oleoduto, a Energy Transfer Partners, é muito bem relacionada: sua linha de crédito tem ligações com praticamente todos os bancos que já se ouviu falar. Operou sob um processo de rápido licenciamento, que ganhou a maioria de suas aprovações e colocou a maior parte de sua tubulação antes que seus adversários conseguissem montar uma resistência eficaz.

Mas essa oposição finalmente surgiu, e ficou centralizada no último lugar onde o oleoduto teria que atravessar: a confluência dos rios Missouri e Cannonball. Não se tratava de lobbying ambiental padrão, nem de protestos padronizados, embora houvesse certamente um pouco de cada (os advogados levaram a empresa para o tribunal e os ativistas fecharam as agências bancárias). Esta resistência, em seu coração, no grande acampamento que cresceu ao longo dos rios, foi um grande ato espiritual. David Archambault, o chefe do Standing Rock Sioux, que demonstrou grande caráter e destreza por meses, insistiu que o acampamento fosse um lugar de oração, e seus caminhos não poderiam ser percorridos sem que se corresse em círculos de tambor e fogos sagrados.

Como resultado, houve exposição das épocas da triste história americana . Quando os manifestantes nativos americanos se sentaram na frente de escavadeiras para tentar proteger os túmulos ancestrais, eram confrontados por cães de ataque – as fotos pareciam Birmingham, Alabama, por volta de 1963. Mas os acontecimentos foram ainda mais longe: o acampamento, com suas ocas e fogueiras, que pairava no vale, pareceu como uma pintura de 1840. Com a exceção de que esta não era apenas uma tribo: eram praticamente todos os indígenas da América do Norte. As bandeiras de mais de 200 nações indígenas se alinharam na entrada da estrada de terra. Outros americanos, atraídos em parte por um sentimento de vergonha por essa parte de sua herança, vieram em peso para ajudar – quando a notícia do veto veio hoje, havia também milhares de veteranos militares à postos para prestar auxílio.

Organizadores indígenas estão entre os melhores do mundo – eles foram a força catalizadora para tudo, desde a luta Keystone até planejamentos de lutas contra a maior mina de carvão do mundo na Austrália. Se conseguirmos desacelerar o rolo compressor do combustível fóssil antes que ele ferva o planeta, grupos como a Rede Ambiental Indígena e Honra a Terra merecerão uma grande parte do crédito. Agora, por exemplo, as “First Nations” do Canadá estão se preparando para “Standing Rock North” ao longo da rota de dois oleodutos em disputa nas areias betuminosas do Canadá. Mas em Dakota foi particularmente especial: eles conseguiram construir não apenas resistência a um projeto, mas uma força nova e unificada notável que, acredito, persistirá. Persistirá, talvez, mesmo em face do novo governo Trump.

Trump, é claro, pode tentar descobrir uma maneira de aprovar o oleoduto imediatamente, mesmo que o governo Obama tenha dificultado isso (em vez de uma negação absoluta, eles simplesmente se recusaram a conceder a licença, permitindo assim o início do processo de declaração de impacto ambiental). Mas se Trump decidir proceder com a aprovação, ele vai estar contra uma grande parcela da população. Simplesmente ignorando essas pessoas para ajudar seus aliados na indústria do petróleo, o que esclareceria muito sobre ele desde o início de seu mandato, isso pode fazê-lo hesitar.

De qualquer maneira, o tempo é medido de forma diferente na disputa entre os habitantes originais do continente e os que chegaram mais tarde. Por quinhentos anos, meio milênio, a mesma história sombria repetiu-se muitas vezes. A notícia de hoje é uma pausa nesta longa história, um novo capítulo. Ele não vai definir esta relação em um caminho totalmente novo – mudança nunca vem tão facil. Mas nunca será esquecida, e isso influenciará os eventos nos séculos futuros. Standing Rock, como Little Big Horn ou Wounded Knee, ou Lexington Green e Concord Bridge, agora pertence à nossa história.

Texto original em Inglês:
https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/dec/04/standing-rock-victory-turning-point

Photo: Jim Watson/AFP/Getty Images

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