Política

Entrevista: Ocupa UnB

Mais de mil estudantes participaram de uma assembleia na Universidade de Brasília que decidiu pela ocupação do campus, na segunda-feira (31/10). O movimento se une a mais de 75 universidades ocupadasem todo o Brasil, enfrentando o governo Temer e sua famigerada PEC do Fim do Mundo (PEC 55), que irá congelar gastos sociais, incluindo educação, por 20 anos.

O Mariachi esteve por lá e conversamos com os alunos. O resultado é esta bela entrevista:

Mariachi: Fale sobre os acontecimentos que antecederam a ocupação: motivações, assembleias, etc.
Ocupa UnB: Na última quinta-feira (26/10/2016) foi convocada, pela Comissão Eleitoral que atua como DCE interino, uma assembleia geral da UnB para a segunda-feira (31/10/2016), após 5 anos de convocações manejadas para serem vazias, realizadas pela Aliança pela Liberdade, grupo político de caráter despolitizante que esteve na gestão por este período. No dia da Assembleia, anteriormente a sua realização, a ocupação do campus de Planaltina foi realizada por seus estudantes. Às 18 horas, reuniram-se os estudantes na assembleia convocada, fortemente influenciados pelas ocupações locais e nacionais. O evento contou com 1424 assinaturas levadas à mesa, além de listas rasgadas por sabotadores para impedir que o quórum se atingisse. Alunos secundaristas vindos de escolas sob controle estudantil no DF também fizeram participações em falas, onde se deliberou democrática e massivamente contra a PEC 241 (55), contra o projeto Escola Sem Partido, contra a Mediada Provisória da reforma do ensino médio, contra a defasagem e pelo aumento das bolsas-permanência, a favor das ocupações de escolas e universidades em todo o país, a favor da greve dos técnicos e a favor da ocupação do centro acadêmico Quilombo realizada pelos seus próprios integrantes. Tudo isso culminou na deliberação acerca da ocupação da reitoria, local estratégico para articular toda a universidade por ser um forte símbolo político, quando todos os estudantes presentes imediatamente se dirigiram aos prédios, onde começou a primeira reunião pública da ocupação para definir sua organização. A partir da ocupação da reitoria, foram chamadas outras assembleias de curso, para uma definição democrática pela base quanto à ocupação dos prédios do vasto campus Darcy Ribeiro, sendo a primeira imediatamente realizada para a ocupação do BSAS (Bloco de Salas de Aula Sul) por alunos que utilizam o prédio. Esta terminou favoravelmente à proposta, sendo seguidos no dia seguinte (01/11/2016) por ocupações na FAC (Faculdade de Comunicação), no IDA (Instituto de Artes) e na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), com muitas outras já convocadas para quinta-feira (03/11/2016).

Mariachi: Vocês são contra a PEC 241 (55), entretanto o governo afirma que ela não irá reduzir os investimentos em educação, mas servirá para sanar os gastos públicos. O que vocês acham disso?
Ocupa UnB: Quanto a PEC 241 (55) cremos que é uma medida imposta pela facção rentista que apenas volta-se à precarização de áreas já precarizadas, como saúde e educação, o que atinge a grande maioria do povo brasileiro, ao congelar os investimentos nessas áreas, além de abrir caminho para as privatizações em massa. Esta medida visa apenas voltar o fundo público para a amortização e o pagamento de juros de uma dívida obscura, deixando o grosso da população reféns dessa política por 20 anos, impossibilitando qualquer disputa em cenários completamente díspares do atual.

Mariachi: Hoje eu assisti ao noticiário na Globo News e a âncora do programa repetia que vocês estão atrapalhando a prova do Enem deste ano. Vocês atrapalham o Enem?
Ocupa UnB: Em relação ao ENEM vemos esse tipo de veiculação como uma tentativa de terrorismo contra os estudantes secundaristas, colocando-os contra o movimento estudantil, que se mobiliza exatamente para resguardar a existência de uma educação secundária e uma universidade pública no futuro. Quanto a sua realização, a escolha política pelo adiamento e não realocação mostra também a atuação do governo no compasso do alegado.

Mariachi: O que vocês respondem aos que dizem que os ocupantes são alunos preguiçosos que não gostam de estudar?
Ocupa UnB: Nas ocupações tudo está sempre a mil, as comissões trabalham 24 horas por dia, mas de modo que os estudantes participem das aulas ainda em curso e compareçam a seus trabalhos e estágios, além da participação em diferentes atividades culturais e aulas públicas abertas à comunidade, que ocorrem todos os dias em horários variados, sempre decididos a partir de demandas externas e propostas internas à ocupação que são repassadas à comissão específica que as organizam e devidamente publicadas em nossa página, sendo que hoje mesmo a Batalha da Escada, tradicional batalha de rap que ocorre na UnB, ocorrerá no pátio da reitoria às 20:00.

Mariachi: Como as pessoas podem ajudar o Ocupa UnB?
Ocupa UnB: Para nos ajudar materialmente em relação a alimentação, além de itens de higiene, como sacos de lixo, papeis higiênicos e materiais de limpeza, ou outros variados itens, como colchões, cobertores, materiais para escritório, principalmente papeis e pinceis, as doações até o momento estão sendo presenciais em todas as ocupações, mas uma conta foi disponibilizada para transferências bancárias*. Mas também precisamos de ajuda contra a campanha midiática que está ocorrendo contra todas as ocupações no país, taxando-nos com os piores adjetivos e visando somente a desinformação geral.

Mariachi: Vocês já sofreram algum tipo de perseguição ou represália? Existem grupos contrários à ocupação?
Ocupa UnB: As represálias na UnB até o momento foram pontuais, como o uso de duas bombas por grupos políticos contrários na ocupação presente no BSAS, além do uso de pedras e tentativa de arrombamento do mesmo prédio. Na FAU, certos indivíduos tentaram intimidar gravando estudantes presentes na assembleia, assim como outros alunos contrários à ocupação tentaram desocupar a FAC, mesmo após deliberação em assembleia autônoma. Na reitoria, até o presente momento, apenas alguns indivíduos vestidos com camisas em que se encontravam imagens do Bolsonaro tentaram intimidar os presentes na madrugada do primeiro dia de ocupação. Na FUP, o campus de Planaltina, já existem ameaças de coação, inclusive com alusão ao uso de coquetéis Molotov, por parte de grupos de desocupação a serem realizadas na próxima assembleia do campus. Em contrapartida, as escolas secundaristas no DF sofrem profundamente com a represália estatal e de grupos autônomos, como a conhecida decisão judicial que permitiu o uso de métodos de tortura para desocupação de uma escola.

*Banco do Brasil
Agência: 3603-X
Conta corrente: 39.037-2
CNPJ: 86.961.737/0001-96
Centro Acadêmico de Direito da Universidade de Brasília


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