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Eu pensei demais

Eu pensei que me sentir sozinha dentro da minha própria casa era assustador. Até me perceber isolada no mundo, sem vínculo, solta no universo, fria … vazia.
Eu pensei que ter sido molestada dos 6 aos 9 anos, sem que ninguém acreditasse em mim e que hoje com 25 ainda ser obrigada a topar com meu agressor, impune, nas ruas da favela onde moro fosse assustador, inaceitável e horripilante! Até perceber que o único lugar onde não estou sozinha é na estatística de violência sexual contra mulheres por parentes e amigos da família, por anos…
E quanto à menina que recentemente matou o pai? Gostaria eu de ter tido a mesma força…
Eu pensei que depressão fosse desculpa pra muita coisa, que era doença de rico, que pobre não sofria disso e nem tinha o direito de sofrer. Até perceber que ela havia me engolido, me inserido em seu estômago a fim de me destruir, desfazer, matar lentamente dentro dessa bolha sem portas nem janelas. Sem ar nem força, companhia ou esperança… Sem compreensão e com muita, mas muuuita solidão.
Eu pensei que o problema da favela era do próprio favelado, do bandido, do viciado… Até perceber que meu inimigo era o Estado.
Por muitas, muitas e muuuuitas vezes eu pensei que puta fosse xingamento justo e que piranha não fosse apenas um peixe. Chamei de puta várias semelhantes a mim. Chamei de piranha a mulher que dormiu com meu ex na cama que eu dividia com ele… Até perceber que era a mim que eu estava xingando e ofendendo, que não tenho a metade do peito, do estômago e da força pra trabalhar e passar por tudo que as manas putas passam. Que piranha realmente é só um peixe. Que a única pessoa que me traiu, foi ele.
Entendi que mulher não pertence a ninguém! Que a buceta de cada uma só pertence a cada uma e cada uma cede a quem quiser. Que isso não transforma nenhuma mulher em desfrutável, imoral ou vagabunda, muito menos em um peixe de água doce… mas, quem me dera poder ser um peixe …
Descobri que vagabundo é apelido de pobre e favelado e vagabunda de qualquer mulher por qualquer motivo que fira a santa masculinidade de um ser de carne como qualquer outro, portador de uma piroca que, em 90% dos casos, não sabe nem usar.
Eu pensei que estudando e trabalhando muuuuito, eu chegaria lá. Que apenas isso bastava. Até perceber que esse “lá”, não é pra todos, muito menos pra pessoas como eu: preta, pobre, favelada, gorda, mulher! Entendi que os semelhantes a mim que chegaram lá, através da meritocracia, não eram tão semelhantes assim… Percebi que condições subjetivas falam, muitas vezes, bem mais alto que a maior força de vontade que existe, porque força de vontade não realiza nada sozinha, sem luta, movimento, companhia, amparo, apoio psicológico e amigável, sem comida na mesa, na barriga, harmonia em casa, na rua, no peito e na mente…
Entendi que todo mundo sente, porém, que cada um sente diferente!
Eu pensei que bandido bom era bandido morto por muuuito tempo. Até perceber que bandido é quem sanciona leis em prol do meu extermínio e dos meus semelhantes. É quem rouba tudo de quem não tem nada, quem cobra de nós hoje pelo acesso do que era nosso ontem, como vários aspectos da própria natureza e direitos básicos. Que quem morre na favela é quase sempre preto, favelado e pobre, por instrumentos de terror e dor comandados pelo Estado, composto pelos mesmos bandidos que expropriaram tudo o que era nosso, inclusive a paz!
Eu pensei que era a pessoa mais complexa do mundo, até perceber que o mundo é bem mais complexo do que eu poderia imaginar… Pensei veementemente, durante quase toda a minha vida, que eu havia feito algo de muito errado para sofrer tanto desde tão nova, mesmo a bíblia me dizendo que o reino de deus era das crianças, que ele me amava e que tudo era só uma provação. Até perceber que existiam crianças em situações muito piores, morrendo de várias doenças, sofrendo abusos maiores e tendo menos comida que eu. Algumas sem ter nem o que comer, morrendo de fome…
Até me deparar com as desigualdades sociais, os cruelíssimos padrões, descaso, esquecimento, maus tratos e abandono do povo negro, pobre, trabalhador e favelado… do gay, da lésbica, da trans, da trava, da puta! Do gordo, do deficiente, do idoso e do menino de rua.
Até perceber que nem existia deus e que se, por ventura, existisse, seria o mais cruel dos seres existentes! Entendi que era só mais uma desilusão…
Ah, eu pensei tanta coisa… Tanta coisa cruel, tanta coisa idiota. Percebi que assustador mesmo é esse mundo onde todos nós caímos de pára-quedas!
Pensei tanto… mas obtive tão poucas respostas e quase nenhuma solução. Entretanto, no extremo exercício de pensar, pude entender muita coisa, porém não apenas pensando, mas vivendo, experimentando, sofrendo, observando, chorando. Chorando muuuito mesmo, até que minhas lágrimas fossem substituídas por palavras em sonetos, poemas e textos.
Hoje penso que preciso parar de pensar e começar a realizar, agir, fazer, superar. Percebo também o quão difícil é essa tarefa…
Difícil ou não, tenho que tentar. Temos que tentar! Temos que lutar!
Pois eu não quero mais apenas pensar, teorizar, contextualizar, refletir… Mesmo entendendo que esse processo é imprescindível, só ele não basta.
Percebi que só pensei, que foi só isso que fiz e que mesmo entendendo muita coisa, não entendidas antes, pouco saí do lugar.
Por isso, não quero mais só pensar… Quero e preciso agir! Preciso sobreviver, parar de agonizar e começar a respirar.
Foi importante pensar, é verdade, por isso tanto pensei, porém demasiadamente. Agora preciso lutar pra, me livrar das coisas que não suporto mais. Acabou!
E vocês? Já pensaram? Então pensem, mas façam algo pra mudar!
Eu já pensei demais.

Por: Tay Ananias

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