Sem classificação

O Mito da Inclusão e o Reinventar da Educação

Apesar de a Constituição brasileira garantir uma educação sem discriminação, desde o ensino básico até o superior, isso não é o que de fato acontece. Afinal de contas, não basta obrigar as escolas a aceitarem alunos cegos, surdos, cadeirantes, autistas, negros, mulheres, pobres e etc. O sistema educacional, como um todo, deve estar preparado para receber não só esses, mas qualquer aluno, e oferecer a cada um deles uma forma de ensino que se adeque à sua maneira de aprender, de se relacionar com o mundo. Deste modo, fica evidente que a educação não pode ser pensada em termos de um ‘aluno médio’, onde todos aprendem no mesmo tempo, da mesma maneira e utilizando uma mesma linguagem. A escola não deve ser homogênea.

A busca insana e irreal pelo aluno padrão tem como uma das consequências de sua estupidez a medicalização do mesmo: qualquer aluno que não se enquadre na norma é ‘diagnosticado’ com algum déficit ou transtorno ou qualquer outra ‘doença’ e logo medicalizado, dopado, drogado. Ora, para uma sociedade ‘proibicionista’, em termos do uso de drogas, esse fato é um belo exemplo de nossa hipocrisia.

Estamos obcecados pelo regular, por regular. Talvez isso seja fruto do nosso atual estado de desenvolvimento tecnológico, não acompanhado pelo intelectual, racional, reflexivo. Talvez tenhamos nos acostumado em demasia a usar o controle remoto para mudar de canal, ver o que queremos ou deixar de ver o que não queremos; usar o pause nas nossas touchscreens ou apenas distribuir nossa indulgência em forma de likes ou unlikes; criar e destruir mundos-fantasia que substituem a experiência, o real, o concreto. Vemos tudo, controlamos tudo, somos semideuses, avatares de nós mesmos.

Acostumados a isso, nos deparamos com um problema (parafraseando Humberto Gessinger): “A vida real, a vida real, como é que eu troco de canal”? Pois bem, a vida não cabe em uma tela, seja quantas polegadas tenha. Estamos sujeitos à adversidade, somos sujeitos de diversidade! Assim, para enfrentar ou, melhor dizendo, alienarmo-nos dessa questão, surge como resposta uma cortina de fumaça, que usamos para dissimular aquilo com o que, por canalhice ou comodidade, preferimos não enxergar.

Dessa forma, escolhemos (e a escola escolhe) não lidar com a multiplicidade, com a pluralidade. Para tanto, inventamos o conceito distorcido de ‘universal’, criamos um paradoxo semântico: o “universal”, que deveria incluir a todos, torna-se mecanismo de exclusão. Doravante, àqueles que não se adequem à curva matematicamente definida para o rendimento, o comportamento, complexificando, assim, a gestão dos corpos e impedindo a linearidade, a mensurabilidade dos mesmos, ou seja, a atribuição de um conjunto de números que descrevam as subjetividades, são ‘apresentadas’, duas ‘opções’: ou aceitam esse “admirável mundo novo” ou são banidos para as terras selvagens. A analogia ao livro de Aldous Huxley não poderia caber melhor à situação pois, como no livro, desde cedo a educação não passa de uma lavagem cerebral e, para minimizar as poucas fugas, o efeito da subjetividade, basta alguns comprimidos de “soma”. Já os sujeitos que não possam de forma alguma ser socializados, os selvagens, são relegados às periferias, às sarjetas, às cloacas dessa admirável sociedade.

A educação, no entanto, é por natureza, híbrida, heterogênea. É através do contato com a diversidade que não somente os seres humanos, mas qualquer forma de vida aprende. Logo, subtrair da educação a pluralidade é despojá-la de sua própria essência. Uma escola dessa forma serve não ao aluno mas àqueles que o querem meramente como massa de manobra, que precisam apenas de mão-de-obra especializada para expropria-lo, ao máximo, de sua força de trabalho.

Isso dito, é evidente que a escola deve sofrer uma profunda metamorfose, quiçá transformada em cinzas, para que delas ressurja alicerçada na promoção do entendimento, do diálogo, do respeito e da cooperação, para construirmos uma sociedade menos injusta. Afinal, como reza a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu artigo primeiro: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.

É importante perceber, e a história nos dá incontáveis provas disso, que a diversidade e a colaboração são nossas mais acertadas apostas para um futuro melhor. A sociedade e o mundo são construções coletivas, não são produto de poucos indivíduos e na maioria das vezes que deixamos nossas decisões e responsabilidades nas mãos de poucos, padecemos por essa escolha. Coletivamente são maiores as probabilidades de vencermos qualquer desafio pois são inúmeros cérebros pensando respostas, possibilidades, simultaneamente. A escola deve ser um local para estimular esse comportamento, pautada, senão no altruísmo, na percepção de que não é possível isolar-nos e de que a colaboração é a forma mais eficaz de construir o progresso e minimizar os prejuízos do convívio em sociedade.

 

Nota: Paulo Freire foi um educador e filósofo brasileiro e que possui influência na educação não só no Brasil, mas em todo o mundo, tendo sido homenageado por instituições como Harvard, Cambridge e Oxford. Seu livro “A Pedagogia do Oprimido” é a terceira obra mais citada do mundo e, desde 2012, ele é considerado o Patrono da Educação Brasileira.

 

Referências:

ORRÚ, Sílvia Ester. O re-inventar da inclusão. Petrópolis: Ed. Vozes, 2017 Introdução, Cap. 2 e 8. p. 21 – 30/ p. 68-76.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Ed. Globo, 2009.

FREIRE, Paulo. A pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1987.

Música: Vida Real, Engenheiros do Hawaii. Acústico MTV, 2004. Disponível em:

 

Filme: Vermelho como o céu Disponível em:

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

+ Vistos

O Mariachi é um coletivo anarquista de midiativismo, fundamentado no princípio da liberdade individual e na busca pela emancipação coletiva.

Copyleft © 2013 - 2017 Direitos autorais é o caralho!

To Top