Brasil

O que a esquerda partidária precisa entender sobre as eleições do Rio de Janeiro

Por Plínio Medeiros

“Os parlamentos, fiéis à tradição real e à sua transfiguração moderna, o jacobinismo, não fizeram senão concentrar os poderes nas mãos do governo. Funcionarismo para tudo – tal é a característica do governo representativo. Desde o princípio deste século se fala em descentralização, autonomia, e não se faz senão centralizar, matar os últimos vestígios de autonomia. A própria Suíça sofreu essa influência, e na Inglaterra deu-se o mesmo. Sem a resistência dos industriais e dos comerciantes, estaríamos ainda hoje a pedir a Paris licença para matar um boi em Brives-Guillarde. Tudo cai pouco a pouco sob a alçada do governo. Só lhe falta já a gestão da indústria e do comércio, da produção e do consumo, e os democratas socialistas cegos pelos preconceitos autoritários sonham já com o dia em que poderão regular no parlamento de Berlim o trabalho das fábricas e o consumo em toda a Alemanha.”

Trecho de Piotr Kropotkin em ‘O Governo Representativo’.

Los Mercelos

Depois da icônica eleição do Rio, a disputa de segundo turno entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, o qual o primeiro ganhou, mesmo sendo atacado por grandes mídias burguesas como a Globo e a Veja. Temos que tirar algumas lições a respeito.

Já explicamos aqui como os anarquistas encaram o voto por exatamente entenderem que a democracia burguesa é posta pela aristocracia que estabelece as suas regras. E até mesmo como eles veem como inútil qualquer tipo de apoio estratégico ou indireto. Mas queremos tratar de um fato específico, fazendo uma análise sobre o assunto.

Antes mesmo do domingo de eleição para o 2° turno, dia 30 de outubro, os partidaristas da esquerda já começaram a acusar anarquistas, alegando que quem votasse nulo, estava votando no Crivella. É interessante como este discurso muda conforme a necessidade deles. Quantas vezes o PSOL já orientou que seus membros deveriam votar nulo? Ou seja, é a conveniência que faz a orientação do voto para quem objetiva apenas o poder.

Quem dera que 41,5% dos eleitores do Rio de Janeiro fossem anarquistas. Eu levaria esta responsabilidade com um largo sorriso no rosto. Seguido claro, de uma tática de criar uma região autônoma, emancipar uma federação dentro do próprio município, e barrar através e luta popular a ação do próprio Estado, milícia e crime organizado (muitas vezes encarados como sinônimos). Pois de fato mais de 2 milhões de pessoa é muita gente. Quem dera se os militantes da Comuna de Paris, da Revolução Espanhola e da Ucraniana, tivessem essa população.

Só por aí vemos o quanto são infantis estes militantes partidários com seus argumentos dignos do fundamentalismo religioso, fazendo o discurso dicotômico de “quem não está conosco está com eles”. Esta análise bem equivocada, que nem pode ser chamada de análise, é bem a cara dessa militância ‘lacradora’, das cirandas e ‘bundaços’.

Não queria jogar areia no ‘bundalelê’ dos partidaristas, mas um dos conselheiros políticos do Crivella, César Benjamin, era do PSOL. Então vamos encarar que os orientadores políticos do Crivella tinham uma base bem agradável para a classe trabalhadora, pelo menos em termos de discurso.

Isto mostra o quanto os militantes do PSOL são carentes de autocrítica. Eles atribuem a culpa nos pobres que são burros em votar no Crivella, e nos anarquistas que votaram nulo. E se negam em analisar que o problema pode estar no colo deles.

A verdade está mais perto do que parece.

As queixas dos eleitores do PSOL explicam bem o motivo de que Freixo não foi aclamado no Rio. Bastou o resultado das eleições declararem o Crivella como novo prefeito do Rio que os militantes do PSOL começaram a xingar os pobres por serem burros e votarem no Crivella.

Me desculpem dizer isso, mas pobres costumam não ter tempo de ir na palestra da sua universidade, nem em suas passeatas e atos em pleno horário comerciais, quando tentam se informar, acabam caindo sempre nas mídias vendidas dos aristocratas. Se não compreenderem isso, vocês só repetirão as idiotices ditas pelos emergentes paulistas, que condenam os nordestinos por serem burros e votarem no PT.

O pobre não é burro, ele sabe o que quer, tem real noção de seu cotidiano. A questão é que vocês estavam muito ocupados com os seus discursos academistas para estar ao lado deles nas suas necessidades, a ponto deles não se verem representados pela esquerda. O mesmo não pode ser dito pela Universal e outras instituições religiosas.

Desculpas sobre a milícia a parte, mas a realidade é que os militantes do PSOL sempre estiveram longe das comunidades. Pois se tivessem trabalhando com a comunidade de base, com projetos sociais relevantes para a mesma, é certo que eles sentiriam mais representados pelo partido. E esta análise não serve apenas aos social-democratas, serve também aos anarquistas. Temos que sair da academia e da internet, para começarmos a compor a base da sociedade, e como dito por Bakunin, começar o trabalho de baixo pra cima.

Fora que o êxito de Crivella se deve a outros fatores além da Universal, e incluímos a Record, tal como anos de política sendo feita na plataforma do próprio PT e PMDB. Inclusive o sociólogo Roberto Dutra, em entrevista ao El País, já declarou que o Crivella tem se afastado do discurso religioso, e sua identidade ligada a Universal, pois tem se sentido prejudicado, já que o povo faz esta associação. Mesmo que a Universal faça ‘curral eleitoral’ para o Crivella, publicamente o candidato tem tentado se afastar deste estereótipo.

A BBC também abordou sobre o tema, que o crescimento a Bancada Evangélica não é responsável pela vitória do Crivella. E inclusive ele não corresponderá ao discurso mais moderado, discordando do posicionamento conservador da Bancada Evangélica, como alguns discursos dicotômicos dos partidarista de esquerda alegam, quase que retratando um mundo após apocalíptico pautado no conservadorismo religioso.

E isso deve ser encarado como ponto relevante. O político fez uma campanha onde justificou seus equívocos religiosos do passado. Também  sempre usou argumentos populistas, enquanto Freixo estava mais preocupado em se mostrar como um candidato de esquerda não tão radical quanto seus opositores tentavam pintar. O que agrada mais a população trabalhadora, que se preocupa mais com temas como saúde, educação, e programas sociais.

Inclusive este pode ser um ponto relevante. Sei que é uma análise um tanto prematura, mas este discurso aguado do Freixo, além de preocupante, por mostrar nos fazer questionar o quanto o candidato é capaz de mudar seu discurso em prol da aceitação popular, pode ter sido significativo para pessoas que esperavam uma posição mais a esquerda não se sentirem representados por Freixo. Parece tom esclarecido e de certa forma sofista de Freixo nos debates, não serviu muito para o seu objetivo final.

1-e-2-turno-eleicoes-rio-2016-crivella-e-freixoVale ressaltar que regiões onde no primeiro turno das eleições votaram no Freixo, no segundo, preferiram o Crivella. Como mostra o gráfico ao lado, onde as regiões em azul favorecem ao Crivella e em roxo ao Freixo. O que ocorreu que fez estas pessoas mudarem de opinião? Ainda insisto que se deve ao discurso feito pelo Freixo tentando bancar o garoto moderado.

Talvez a social-democracia deva começar a ser encarada como um espectro da direita ao invés da esquerda, assim como foi o liberalismo que um dia fora considerado de esquerda, quando se opunha a monarquia, e passou a se compor como direita quando tentou se reafirmar como defensor dos direitos individuais. Mas isto é papo para outra hora.

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