Brasil

Precisamos falar sobre a ARTE.

Por: Cristina Froment

Mas, afinal, o que é a arte?

Eu, alguém que sempre respirou arte, com formação em teatro e fotografia, flertando vez em quando com a literatura e artes plásticas muito timidamente, realmente não sei definir o que é arte. Não consigo mesmo responder a essa pergunta. Eu sou uma pessoa que, normalmente, costumo ver arte em quase tudo, até em pequenas e simples coisas da vida, em objetos e gestos cotidianos. Mas óbvio que também me questiono e já me questionei diversas vezes sobre algo ser arte ou não ser. Me lembro de ano passado ter ido ao Paço Imperial e ter visto por lá algumas caixas de isopor colocadas no pátio, assim aleatoriamente, como se estivessem secando ao sol. Fiquei intrigada com aquilo e fiquei realmente pensando se seriam caixas de ambulantes que ali estavam ou se era alguma instalação. Não me contive e fui perguntar ao guarda, que me informou que SIM, era uma exposição. Até hoje confesso que não consegui entender aquela arte, mas respeito e sempre irei respeitar um artista e sua visão acerca da arte. Sabe por que? Porque o meu olhar não é igual ao seu, que por conseguinte não será igual ao do seu amigo, namorada, marido, vizinho ou sei lá quem. Somos seres humanos, diversos, pensamos diferente e encaramos o mundo cada um da sua forma particular. O que é intensamente artístico para mim pode não ser para você. Ou vice versa. Esse é um debate, do meu humilde ponto de vista, inócuo. Jamais conseguiremos chegar a uma conclusão sobre o que é ou deixa de ser arte.

Porém, temos o direito de escolha, ainda temos a legitimidade do ir e vir. Sendo assim, eu escolho as peças que quero assistir, as exposições que quero ver, museus e espaços de arte onde irei sozinha, com minha família, com minha filha de 7 anos. E aqui preciso fazer um parêntesis, pois desde que minha filha nasceu que o que mais tento fazer é dar acesso a ela a uma boa e intensa formação artística. Quero que ela também respire arte. Acho essencial.

Dito isso, quero falar sobre a performance no MAM. Sim, uma performance artística, não gratuita, com conceito e fundamentos, de Wagner Schwartz, bailarino que trabalha há quase 20 anos com coreografia e tem vários prêmios. Para quem não sabe, basta procurar informações. Sua performance, La Bête, foi inspirada em um trabalho de Lygia Clark.” ‘Bichos’ é considerada a obra viva da artista, pois sua intenção era de que a arte ultrapassasse os limites da superfície de um quadro. A série de esculturas com dobradiças permite que o espectador se torne figura atuante na obra, e foram construídas com formas geométricas para que não se parecessem animais, mas que permitissem uma visão livre do que a peça representava.”
‘A arte entende o corpo nu muito além do sexo’, diz Jorge Alencar sobre essa performance. E é exatamente isso! Queria muito entender porque o corpo nu de um homem, numa performance nada erótica, vai remeter ao sexo para certas pessoas.

Quando adentramos grandes museus, em qualquer parte do mundo, sempre iremos nos deparar com obras, pinturas, esculturas, com o nu exposto. Artisticamente. É ou não é?

A polêmica se deu em função da criança que ali esteve. Com relação a isso, ficou bem claro que o MAM havia colocado avisos do conteúdo de nudez na performance. Então, entrou ali quem escolheu entrar. E aquela mulher escolheu entrar. Mais: escolheu entrar levando sua pequena filha. Escolheu que sua filha interagisse com a performance. Sem nenhuma conotação sexual ou sequer pedófila, de acordo com o que eu vi no vídeo.

O que mais me incomoda é que a partir desse fato, começam a discutir se isso é arte ou não, sem qualquer conhecimento do que é a performance, sem qualquer respeito ao trabalho desenvolvido por Wagner Schwartz, com xingamentos e impropérios, julgamentos severos e atribuições inverídicas ao que foi realizado. Pedofilia? Cunho sexual? Desculpa, mas eu não pude enxergar isso. O que vi foi um corpo a serviço de uma performance. Embora eu não tenha usado o nu total, fiz uso do meu corpo na minha performance CORPO PRESENTE MANIFESTANTE, num dia de Ocupa Lapa, na Lapa. Meu corpo se fez de tela para diversas mensagens em pinceis e tinta vermelha! Foi forte, foi potente! Não fui desrespeitada, muito pelo contrário. O artista, seu corpo, sua voz, seu ser está e sempre estará a serviço da arte. E isso precisa e deve ser respeitado.

Para mim é simples, a escolha é minha, tão somente minha! Eu escolho o que eu quero ver ou não ver. Mesmo que eu ache que algo não é adequado para minha filha e não a leve, ou ainda que eu ache que não tem nada demais e ela me acompanhe, essa é uma escolha MINHA. Se vc não concorda, tudo bem, vamos continuar sendo amigos, você com suas escolhas e eu com as minhas. Mas por que, gente, pra que, gente, criar tanta polêmica, demonizar uma performance assim dessa forma?!
Com tanta coisa bem mais chocante no mundo! Me choca muito mais o fato de uma mulher ser vítima de violência sexual a cada 11 minutos no Brasil. Me choca muito mais saber que a pedofilia muitas vezes começa dentro da própria casa da vitima, por cidadãos considerados “de bem”, “de família”! Me choca muito pensar que tem gente nesse exato momento na rua, sem tem o que comer, sem tem o que vestir, sem ter onde se abrigar.

Sinto muito, queridos, mas a arte sempre estará acontecendo em todos os lugares, tudo ao mesmo tempo agora, rompendo paredes, muros, corpos e mentes, vocês querendo ou não. A história da humanidade já nos mostra isso, desde a pré história e suas pinturas rupestres, alias.

[Na foto, Davi de Michelangelo, Escultura que tem mais de cinco metros de altura, considerada uma obra-prima,exposta na Academia de Belas Artes de Florença, Itália]

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

+ Vistos

O Mariachi é um coletivo anarquista de midiativismo, fundamentado no princípio da liberdade individual e na busca pela emancipação coletiva.

Copyleft © 2013 - 2017 Direitos autorais é o caralho!

To Top