Política

Um Rio de Lágrimas

Domingo é dia de missa, dia de igreja, dia de alegria.

Lembro-me, quando criança, de meus familiares e da família de meus amigos, quando nos encontrávamos na esquina de minha rua. Cada um indo para sua igreja. Vestíamos as melhores roupas, os melhores calçados e lá íamos nós. Parecia que o horário era combinado: na mesma esquina, pais, mães, avôs e avós, rindo e se cumprimentando enquanto seguiam seus caminhos. Alguns eram católicos, outros testemunhas de Jeová (como eu), outros tantos evangélicos, não importava a denominação religiosa, se a democracia pudesse ser representada na Baixada Fluminense através de uma imagem, escolheria aquela. Com o tempo percebi que essa democracia dominical era restrita. Será que foi a maturidade que desnudou o meu olhar?

Vai queimar no inferno”. Foi o que uma voz ameaçadora esbravejou para a menina de 11 anos de idade, no momento em que ela percebeu o sangue escorregando pelo rosto, avermelhando toda sua veste branca. Foi numa dessas noites de domingo, no mês de junho do ano de 2015. A menina se chama Kaylane Campos, ela é moradora da Vila da Penha e levou uma pedrada na cabeça de um grupo que, com bíblias em punho, a insultava e a seus familiares, por serem adeptos do candomblé.

Kaylane Campos da Vila da Penha, de 11 anos levou uma pedrada na cabeça depois de uma festa de candomblé.
Foto: Guilherme Pinto

Ninguém havia me dito, quando criança, que os terreiros de candomblé eram legais. Ninguém me contou na escola que ali se mantinha viva tradições de povos africanos que vieram para o Brasil na condição de escravos. Ninguém me ensinou que idiomas africanos, comidas, saberes e rituais africanos milenares, de diversas regiões de África, eram praticados naqueles quintais. A única coisa que me ensinaram, sistematicamente, era que Satanás, o anjo caído, o demônio citado na bíblia, também habitava naqueles espaços e é por isso que a macumba não é de Deus. Esses ensinamentos, a maioria de nós experimentamos em algum momento de nossas vidas, fomos educados para isso.

Como a educação é algo poderosíssimo, não podemos atribuir somente aos traficantes de drogas toda essa violência que estamos presenciando, estarrecidos, nos terreiros de candomblé invadidos e violados. Seria, no mínimo, um vacilo etnográfico. Se observarmos os cultos neopentecostais desde a década de 1980, seus programas televisivos e seus esforços absurdos para demonizar as religiões de matrizes africanas, perceberíamos que os processos educativos já estavam a todo vapor. Na mesma medida, o Estado e as escolas públicas através de professores, coordenadores pedagógicos e diretores, também já nos mostravam que a laicidade não é bem assim.

Como podemos isolar o discurso do traficante, quando obriga a mãe de santo e o pai de santo do Morro do Dendê na Ilha do Governador, deste processo sistemático de demonização e coisificação das religiões pretas? Como não ouvir o “chuta que é macumba” e se indignar com o chute em Nossa Senhora Aparecida? Como é que o “está amarrado em nome de Jesus” e o proselitismo “ide e fazei discípulos em qualquer lugar”, dialogam no “chão da escola” tão facilmente? São questões que se entrecruzam e nos aponta para o pior congresso nacional da história de nosso país, cuja bancada evangélica cresce em proporções assustadoras e defendem pautas extremamente conservadoras e neofascistas. Mas não seria esse o reflexo de nossa sociedade?

A violência contra as religiões de matrizes africanas que vem ocorrendo no Rio e na Baixada Fluminense, fruto da omissão do poder público, do conluio e da relação espúria com setores neopentecostais, nos ensina sobre a necessidade de nos organizarmos. É preciso enfrentar e confrontar o racismo e sua institucionalização, pois como eu disse anteriormente, tratam-se de deuses e deusas pretos (as). Há mais de 300 anos que sobrevivemos neste território hostil, sabemos que nos querem mortos. Sabemos do genocídio de nossos jovens pretos e do epistemicídio de nossos saberes que ergueram essa nação e depois passou a ser negado, vilipendiado, perseguido e assassinado.

Por isso que no próximo sábado, dia 16 de setembro de 2017, no terreiro de Mãe Beata de Yemanjá (in memorian), o Ilê Axé Omiojuarô, estarão lideranças religiosas, intelectuais, políticos e todos aqueles que acreditam na diversidade e no bem viver.

Por: Marcos Serra1

1 Filho de Xangô, iniciado por Mãe Beata de Yemanjá. Ator e professor de artes cênicas na rede pública (estadual e município do RJ). Formado em licenciatura em artes cênicas pela UNIRIO. Mestre e doutorando em educação pela UERJ. Dirigente do MNU (Movimento Negro Unificado) de Nova Iguaçu. Coordenador de projetos do INDEC (Instituto de Desenvolvimento Cultural do Ilê Omiojuaro). Colaborador do LEAFRO/UFRRJ. Membro do grupo de pesquisa Kekéré (ProPEd/UERJ) e do grupo GEPICAFRO (PPGEDUC/UFRRJ).
2 Comments

2 Comments

  1. Jose Wilson Carvalho

    setembro 15, 2017 at 10:33 am

    Dias de fascismo político, cultural e social, dias de manobras sórdidas contar o bem estar do povo, dias de racismo, dias nublados, dias de penúria da inteligência, dias que devemos nos reunir para a luta de dias de valorização da nossa cultura, da nossa raça e de nossa sociedade para o bem de todos cidadãos brasileiros.

  2. Stela Guedes

    setembro 15, 2017 at 12:27 pm

    Texto fundamental para a reflexão de todos nós, em especial, educadores.

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